Eu vivo olhando aviões. Aviões passam sempre por aqui. Uns mais baixos, outros bem lá no alto. Morro de medo de todos eles. Meu pensamento funciona da seguinte forma: se eu entrar num avião, é bem provável que eu morra; tipo 99% de chance de morrer e um mísero por cento de sair viva. Tudo isso sabendo que "o avião é o meio de transporte mais seguro", como eles dizem.
Vivo lendo sobre aviões. Aviões fazem parte do plano central do meu futuro. E não bastasse toda a tensão da viagem, do pensamento da turbulência, de ficar sem ar dentro da cabine, de o avião cair e explodir ao se chocar com a água, tem a gordura — sempre tem.
"Gordinhas são barradas em voo nos Estados Unidos"
"Passageiro gordo não cabe na cadeira da American Airlines"
"Obesos pagarão por 2 poltronas em aviões"
"Obeso é recusado em avião, navio e trem"
Essas são só algumas manchetes. Fora o tipo de comentário babaca que se lê por aí:
"O gordo(a) quer sentir prazer comendo até se acabar. Para que algumas pessoas comam demais, outras tem que comer menos ou passar fome, como acontece com quase 1,7 bilhões de pessoas no planeta terra que morrem diariamente por falta de comida (sugiro a leitura de “O mundo não é plano”). Como se não bastasse depois de sentirem um enorme prazer comendo, querem que as demais pessoas se solidarizem com eles e viagem espremidas nos seus assentos em aviões, metrôs e etc. Aliás, no metrô de SP já há vergonhosos assentos para gordos (as). Depois de tudo isso, ainda pagamos a conta deles no SUS, os miseráveis comem, ficam gordos (as), adoecem de tanta gordura e os demais pagam a conta através de seus descontos salariais destinados ao INSS, sem contar que muitas pessoas deixam de ser atendidas na saúde pública, porque na fila tem um (a) gordo(a) na frente porque passou a vida enchendo a pança de porcaria e depois vai procurar o doutor. Daqui a 300 anos estou certo que tem terá direitos e privilégios são aqueles que cuidam da saúde e não os que a negligenciam. Gordos e gordas fechem a boca e mexam o corpo, o planeta e a civilização agradecem." (Comentário em Blog do Turismo)
Pra que tanto ódio?
Ainda bem que há gente sensata, também:
"A obesidade, principalmente a mórbida, é fruto de patologias, senão físicas, psicológicas. Ninguém quer ser gordo, apenas não consegue controlar seu peso. Não cabe à ninguém julgar o motivo nem mesmo querer que a pessoa pague a mais para poder viajar." (Comentário em Blog do Turismo)
Houve um tempo da minha vida, que eu só andava de trem. "Eu prefiro trem! Adoro tem." — Inverdade. Eu adoro trem, verdade, mas o motivo real era: eu entalei sério uma vez numa roleta de ônibus e, desde então, nunca mais tinha sido a mesma.
O causo da roleta aconteceu quando eu tinha uns... 15 ou pouco mais anos. Estava com minha mãe, estávamos voltando do shopping. Nem ela, nem eu: as duas empacaram bem no meio da rodada e foi difícil — e doloroso, não só fisicamente — conseguir terminar de rodar. Vergonha demais.
Andava em ônibus conhecidos, que já sabia que passaria, sem problemas. Um dia, tive que embarcar num outro ônibus e cheguei a ficar com os olhos inundados de medo. Totalmente abalada, coração disparado, tremedeira, à beira de um colapso nervoso. Consegui passar, mas fiquei tentando me acalmar daquele desespero a viagem inteira. Falando em pensar nisso a viagem inteira, jamais pegava aqueles ônibus com uma porta só! Isso significaria a exaustão em torno da roleta duas vezes! Pouco antes de entrar no ônibus, acredito, sofria um efeito baiacu. Tinha que me concentrar em ficar muito, muito calma, pra não inflar e piorar o que já era ruim. Pra ajudar nessas ocasiões, costumava escolher uma roupa de tecido escorregadio, geralmente helanca — que detesto — pra deslizar mais facilmente. Bolsas e casacos, jamais passariam comigo. Nada que me acrescentasse uma camada extra! Se estivesse carregando um ou outro, a ordem era sempre a mesma: passava-os pra mão direita, colocava a mão direita do lado de lá da roleta, espremia a barriga e rodava, de lado. Depois de um tempo, aprendi os truques. Sempre me ajudava. Encolhia a barriga, ficava na ponta do pé e, se fosse uma roleta com um espaço aberto atrás, encaixava a bunda ali — me rendia espaço.
Passei um tempo pegando só os ônibus conhecidos e me abstraindo das memórias do trauma. Até que um dia, em 2008, fui passear pelo bairro da faculdade com uns amigos queridos. Bairro de gente riquinha e metida, exceto por eles, que eram gente boa. Mais uma vez, foi muito difícil rodar. Eles notaram, claro, e eu fiquei com aquela minha cara de louca envergonhada, ao mesmo tempo querendo rir histericamente, fingindo que nada tinha acontecido, ao mesmo tempo de cabeça baixa ou olhando no horizonte das ruas arborizadas, morrendo de vergonha. Daí em diante, foi mesmo só trem e metrô — e o ônibus daqui de perto, o conhecido. Aí inventaram de incluir os obesos na categoria do assento especial dos ônibus. NUNCA, JAMAIS, eu sentaria ali. Porque, claro, ninguém sabia que eu era obesa! Se eu sentasse ali, confortavelmente, todos descobririam! Mesma coisa subir pela porta de trás do busão. Jamais. Muita vergonha. Todo mundo saberia que estava subindo por ali porque não conseguia passar pela da frente. E, além do mais... "Ô, motorista! Pode abrir a porta de trás pra mim, por favor, porque entalo na roleta?" Pensa na humilhação. Tudo isso mudou quando eu emagreci os 35kgs e comecei a andar por todos os ônibus que podia, tirando uma onda que só eu sabia. Hoje também sento no banco de obesos, sem nenhum complexo, na maioria das vezes (mas me faço caber em só um pouco mais da metade do banco, pra mostrar que sou magrinha! — "Sou obesa, mas não sou das piores, tá? Olha esse espaço todo pra uma pessoa malnutrida aqui do meu lado! :D").
"Ajeitar-me no banco foi uma tarefa relativamente fácil para um gordo acostumado com o design cruel dos assentos de avião. O primeiro passo é deixar o cinto de segurança sobre os braços da cadeira antes de sentar. Depois, ir já de costas na direção de sua poltrona para, com todo cuidado do mundo, ajeitar-se no pequeno espaço. Em seguida, o cinto deve ser estendido até o limite máximo, a barriga deve ser “puxada” e, com sorte, o cinto entra de primeira. Depois, é só ajeitar o tamanho correto e verificar se continua sendo possível respirar." (Texto em Papo de Gordo)
Todos dizem que poltrona de avião (Classe econômica, é claro! Jamais vou pagar 17 mil numa viagem!) é extremamente pequena e desconfortável. Eu fico pensando... e se eu não conseguir prender o cinto de segurança, como sempre na vida, e passar por uma turbulência e quebrar o pescoço ao bater no teto, pois era gorda e estava frouxa? E se o avião cair por minha causa? Pior ainda, e se tiver uns três obesões no avião? E se, antes de tudo isso ter oportunidade de acontecer, não me deixarem embarcar por ser obesa?
"Esteja em forma. Jovens esbeltos têm as melhores chances de sobreviver a um acidente de avião. Enquanto as mulheres obesas têm as piores probabilidades." (Texto em Negócio Digital)
Foto por Flightglobal.com
Vivo lendo sobre aviões. Aviões fazem parte do plano central do meu futuro. E não bastasse toda a tensão da viagem, do pensamento da turbulência, de ficar sem ar dentro da cabine, de o avião cair e explodir ao se chocar com a água, tem a gordura — sempre tem.
"Passageiro gordo não cabe na cadeira da American Airlines"
"Obesos pagarão por 2 poltronas em aviões"
"Obeso é recusado em avião, navio e trem"
Essas são só algumas manchetes. Fora o tipo de comentário babaca que se lê por aí:
"O gordo(a) quer sentir prazer comendo até se acabar. Para que algumas pessoas comam demais, outras tem que comer menos ou passar fome, como acontece com quase 1,7 bilhões de pessoas no planeta terra que morrem diariamente por falta de comida (sugiro a leitura de “O mundo não é plano”). Como se não bastasse depois de sentirem um enorme prazer comendo, querem que as demais pessoas se solidarizem com eles e viagem espremidas nos seus assentos em aviões, metrôs e etc. Aliás, no metrô de SP já há vergonhosos assentos para gordos (as). Depois de tudo isso, ainda pagamos a conta deles no SUS, os miseráveis comem, ficam gordos (as), adoecem de tanta gordura e os demais pagam a conta através de seus descontos salariais destinados ao INSS, sem contar que muitas pessoas deixam de ser atendidas na saúde pública, porque na fila tem um (a) gordo(a) na frente porque passou a vida enchendo a pança de porcaria e depois vai procurar o doutor. Daqui a 300 anos estou certo que tem terá direitos e privilégios são aqueles que cuidam da saúde e não os que a negligenciam. Gordos e gordas fechem a boca e mexam o corpo, o planeta e a civilização agradecem." (Comentário em Blog do Turismo)
Pra que tanto ódio?
Ainda bem que há gente sensata, também:
"A obesidade, principalmente a mórbida, é fruto de patologias, senão físicas, psicológicas. Ninguém quer ser gordo, apenas não consegue controlar seu peso. Não cabe à ninguém julgar o motivo nem mesmo querer que a pessoa pague a mais para poder viajar." (Comentário em Blog do Turismo)
Houve um tempo da minha vida, que eu só andava de trem. "Eu prefiro trem! Adoro tem." — Inverdade. Eu adoro trem, verdade, mas o motivo real era: eu entalei sério uma vez numa roleta de ônibus e, desde então, nunca mais tinha sido a mesma.
O causo da roleta aconteceu quando eu tinha uns... 15 ou pouco mais anos. Estava com minha mãe, estávamos voltando do shopping. Nem ela, nem eu: as duas empacaram bem no meio da rodada e foi difícil — e doloroso, não só fisicamente — conseguir terminar de rodar. Vergonha demais.
Andava em ônibus conhecidos, que já sabia que passaria, sem problemas. Um dia, tive que embarcar num outro ônibus e cheguei a ficar com os olhos inundados de medo. Totalmente abalada, coração disparado, tremedeira, à beira de um colapso nervoso. Consegui passar, mas fiquei tentando me acalmar daquele desespero a viagem inteira. Falando em pensar nisso a viagem inteira, jamais pegava aqueles ônibus com uma porta só! Isso significaria a exaustão em torno da roleta duas vezes! Pouco antes de entrar no ônibus, acredito, sofria um efeito baiacu. Tinha que me concentrar em ficar muito, muito calma, pra não inflar e piorar o que já era ruim. Pra ajudar nessas ocasiões, costumava escolher uma roupa de tecido escorregadio, geralmente helanca — que detesto — pra deslizar mais facilmente. Bolsas e casacos, jamais passariam comigo. Nada que me acrescentasse uma camada extra! Se estivesse carregando um ou outro, a ordem era sempre a mesma: passava-os pra mão direita, colocava a mão direita do lado de lá da roleta, espremia a barriga e rodava, de lado. Depois de um tempo, aprendi os truques. Sempre me ajudava. Encolhia a barriga, ficava na ponta do pé e, se fosse uma roleta com um espaço aberto atrás, encaixava a bunda ali — me rendia espaço.
Passei um tempo pegando só os ônibus conhecidos e me abstraindo das memórias do trauma. Até que um dia, em 2008, fui passear pelo bairro da faculdade com uns amigos queridos. Bairro de gente riquinha e metida, exceto por eles, que eram gente boa. Mais uma vez, foi muito difícil rodar. Eles notaram, claro, e eu fiquei com aquela minha cara de louca envergonhada, ao mesmo tempo querendo rir histericamente, fingindo que nada tinha acontecido, ao mesmo tempo de cabeça baixa ou olhando no horizonte das ruas arborizadas, morrendo de vergonha. Daí em diante, foi mesmo só trem e metrô — e o ônibus daqui de perto, o conhecido. Aí inventaram de incluir os obesos na categoria do assento especial dos ônibus. NUNCA, JAMAIS, eu sentaria ali. Porque, claro, ninguém sabia que eu era obesa! Se eu sentasse ali, confortavelmente, todos descobririam! Mesma coisa subir pela porta de trás do busão. Jamais. Muita vergonha. Todo mundo saberia que estava subindo por ali porque não conseguia passar pela da frente. E, além do mais... "Ô, motorista! Pode abrir a porta de trás pra mim, por favor, porque entalo na roleta?" Pensa na humilhação. Tudo isso mudou quando eu emagreci os 35kgs e comecei a andar por todos os ônibus que podia, tirando uma onda que só eu sabia. Hoje também sento no banco de obesos, sem nenhum complexo, na maioria das vezes (mas me faço caber em só um pouco mais da metade do banco, pra mostrar que sou magrinha! — "Sou obesa, mas não sou das piores, tá? Olha esse espaço todo pra uma pessoa malnutrida aqui do meu lado! :D").
Eu entendo bem de viajar mal em trem, metrô, ônibus comum, ônibus de viagem (além de gorda, é alta e o infeliz da frente sempre quer inclinar o banco pra ficar confortável, enquanto eu vou criando um câncer no banco de trás, irritadíssima e calada sobre meus joelhos massacrados)... eu entendo bem de tudo que vai mal para gordos. Mas avião, não.
"Ajeitar-me no banco foi uma tarefa relativamente fácil para um gordo acostumado com o design cruel dos assentos de avião. O primeiro passo é deixar o cinto de segurança sobre os braços da cadeira antes de sentar. Depois, ir já de costas na direção de sua poltrona para, com todo cuidado do mundo, ajeitar-se no pequeno espaço. Em seguida, o cinto deve ser estendido até o limite máximo, a barriga deve ser “puxada” e, com sorte, o cinto entra de primeira. Depois, é só ajeitar o tamanho correto e verificar se continua sendo possível respirar." (Texto em Papo de Gordo)
Todos dizem que poltrona de avião (Classe econômica, é claro! Jamais vou pagar 17 mil numa viagem!) é extremamente pequena e desconfortável. Eu fico pensando... e se eu não conseguir prender o cinto de segurança, como sempre na vida, e passar por uma turbulência e quebrar o pescoço ao bater no teto, pois era gorda e estava frouxa? E se o avião cair por minha causa? Pior ainda, e se tiver uns três obesões no avião? E se, antes de tudo isso ter oportunidade de acontecer, não me deixarem embarcar por ser obesa?
Eu não quero ser obesa e quero muito embarcar para o meu grande plano de futuro. Eu vinha tomando isso como incentivo pra continuar emagrecendo e vou voltar a me apegar nisso, nessa nova jornada de reação que se inicia.
"Esteja em forma. Jovens esbeltos têm as melhores chances de sobreviver a um acidente de avião. Enquanto as mulheres obesas têm as piores probabilidades." (Texto em Negócio Digital)
Foto por Flightglobal.com

