sexta-feira, janeiro 01, 2016

quarta-feira, julho 29, 2015

Julho

Oi, blog. Deixa eu falar contigo, deixa eu parar de te evitar (mesmo que subconscientemente).

Eu não engordei. Não recuperei meus 35 quilos perdidos. Também não estou num efeito platô. Eu tenho um novo peso, 122-124kg. Em semanas mais gordinhas, 124, em semanas mais magrinhas, 122. E é isso. Eu assumi essa verdade. Tenho um peso "fixo". Bom pra mim! Não engordei tudo de novo e não estou engordando.

Precisava aceitar essa verdade. Essas. Tenho um peso fixo E preciso deixar pra lá a história dos 35 quilos perdidos. Sim, eu perdi. Sim, foi legal e eu me superei e nunca achei que seria capaz disso. Sim, todo mundo já viu. (Aliás, quanto mais pessoas sabem, menos importância tem, mais acomodada na história de sucesso passada, fico.) Next. Aquela eu de 155 quilos já não existe! Preciso é saber lidar com essa aqui de 122 e seguir adiante com ela. Eu já sou outra pessoa. Eu tenho uma outra realidade, agora. E ela continua gorda. Chega de viver o sucesso do passado e só. Preciso de sucesso atual. A cada dia, a cada semana. Infelizmente, não vai dar pra continuar contando progressivamente até chegar aos 40, 50kgs perdidos. Deixa que, no final, eu conto os números todos juntos.

Eu sabia que precisava aceitar. Aceitei, então! Vou recomeçar. Peso 122 e quero perder esses vinte-alguns até o fim do ano. Não sei se vai acontecer, mas, querer, eu quero.

A jornada da eu de 155kgs acabou. Não adianta forçar continuar ali, naquele trajeto. Pessoas mudam sempre, caminhos também. Que dirá o caminho de alguém que conseguiu, sozinha, perder tantos quilos de si.

A meta é a mesma, sempre vai ser a mesma. O caminho, no entanto, pode ser outro.

Por que não jogar o jogo da mente, se é ela que manda?

sábado, abril 25, 2015

Nem baleia, nem sereia!

(Porque as duas expressões são ridículas.)

Faz um mês hoje, comecei uma atividade física legítima, real, regular, onde pessoas além de mim sabem que aquilo com certeza é um exercício.

Um tempo atrás, em mais uma escrita na qual eu reclamava da vida e de depender de fatores incontroláveis pra começar a academia, a Companheira Cristina me deixou uma dica: lá, no bairro dela, tinha uma atividade física que não costumava pedir atestado médico. Você, que não é a Cristina, pode adivinhar qual atividade essa é? Dou uma dica: quando pensa-se nela, a primeira coisa que vem à cabeça é um bando de velhinhas de maiô, toquinha e macarrão de piscina pro alto.

...Se você pensou em hidroginástica, acertou!

Assim que li a dica da Companheira, abracei aquela ideia. De repente, aqui também não precisaria de atestado! De repente, eu logo poderia fazer! Yay!

Passei uma semana com os pensamentos variando entre envergonhados, empolgados e sabotadores. Tinha a questão de eu vestir um maiô (vestir? Achar um pra comprar, primeiro!), a questão da turma só de velhas; nada contra as velhas (exceto aquelas que são tipo a minha mãe.  E contra os velhos, aqueles que são tipo o meu avô), mas você pode imaginar o tanto de coisa que passa na cabeça de uma jovem gorda de 24 anos ao se submeter à uma atividade "destinada" a terceira idade, quando queria estar passando tempo com gente jovem? Não pode fazer muito bem pra auto-estima sabotadora. Fora isso, tinha o fato que a danada da aula me custaria oitenta e cinco reais por mês! Oitenta e cinco.

Li muito sobre a atividade, me convenci, aceitei que era o que tinha pra mim naquele momento e fui até a academia pra saber mais. Lá, acabei conseguindo um precinho promoção!  Não porque pechinchei. Acredite, não tenho O MENOR talento pra isso. A promoção envolvia me comprometer com seis, eu disse s e i s, meses de aula. Que agonia! Seis meses fazendo isso? A t é s e t e m b r o fazendo isso?

Dias depois, eu estava resolvida. Naquele mesmo dia compraria um maiô, naquele mesmo dia começaria minhas aulas. Assim, tudo duma vez.

Depois de muito andar, fui encontrar maiô numa única loja. E minhas opções eram poucas: tinha um azul, bonito, mais pro ciano, com decote nas costas e corte bonito; tinha um preto liso e básico e tinha um outro azul, marinho-de-natação, que, ainda que G, a moça queria me empurrar. Não, obrigada, vou experimentar só mesmo esses dois GG aqui e torcer pra conseguir entrar :D Experimentei primeiro o azul, bonito. Tinha um bojo que era pequeno demais pros meus peitos e o decote das costas exibiria o sutiã que, naquele caso, eu teria que usar. Foi difícil (muito mesmo), mas consegui vestir o pretinho básico. A vontade foi de nem tirar, porque tinha medo de não conseguir vestir de novo, de tão apertada que tava ali dentro. Tava ótimo! Consegui um maiô e era isso que queria. Todo gordo tá cansado de saber que é a roupa quem nos escolhe, não o contrário. Eu estava satisfeita. Comprei esse, que levava o sutil nome de "maiô senhora".

Corri pra academia.

A sensação da espera foi ótima. Eu tinha uma academia! Aquele pensamento me abraçou e me senti extremamente fit bem.

Na aula, fiz todos os exercícios empolgadíssima. O horário estava cheio. Além de velhas, velhos e também umas três pessoas mais jovens. Adorei ver pessoas mais jovens! No dia seguinte, e mais ainda no final daquela semana, só sentia minhas pernas e, principalmente, panturrilhas. Ai!

Eu achava que hidroginástica não era pesada. Que não resultava em lá grandes coisas. Bobagem.

Semana passada, senti minha bunda meio dura. E ousaria dizer, até mais arredondada. — O que estava acontecendo? Essa semana, inspirada pelo amigo Atilio e sua Cãopanheira, fui caminhar com a minha amiguinha. No meio do passeio, arrisquei várias corridinhas. Com ela, é ótimo, porque toda a vergonha some. Corria olhando pra ela, incentivando, e, pra quem tava de fora (muito me importa), eu estava só correndo com a cachorrinha. Foi ótimo! Quis fazer sempre, mas a tadinha voltou cheia de carrapatos. A questão é: cheguei em casa, olhei no espelho e me vi vermelha! Bem vermelha. A gordinha da 6ª série na educação física. Só que, agora, me sentia feliz, ao invés de envergonhada. Que prazer nas bochechas vermelhas! E ali, contemplando a rubidez, me caiu a ficha: eu tinha corrido, mais que qualquer dia anteriormente, e... não estava cansada! Não podia acreditar naquilo. Que felicidade! Era sério aquilo? No dia seguinte, voltei pra rua, pra tirar a teima. Não é que eu conseguia mesmo? Fiquei extremamente impressionada com esse novo condicionamento físico que a hidro havia me dado. Não é necessário dizer — mas vou, porque sou assim  que, obviamente, não estou cem por cento ainda. Não é milagre, é melhoramento. E eu tô tão feliz com esse melhoramento, que vocês nem sabem! Ah! Meus músculos da perna também estão levemente durinhos, já sinto. Talvez esteja louca! Eu sei lá se um mês de exercício na água traz resultado! Talvez esteja louca. Mas não estou não :D

Não sei o que vai ser depois dos seis meses. Mas, até lá, vou pras minhas aulas de muito bom grado! É ótimo. Coloco força, dou o meu melhor. Cansa bastante. Deixa os músculos durinhos. Me ajuda a correr. Só vantagem. :D

Fico contando as horas, literalmente, pra entrar naquela piscina.

sábado, abril 18, 2015

Estou trazendo as coisas boas de volta pra mim

Tem um tempo, eu venho querendo separar a sexta-feira  e só a sexta-feira  pra poder comer aquela comidinha mais gostosa, mais culposa. Sexta, porque é quando eu geralmente saio com algum amigo pra comer (sim, o programa da gorda é comer!); sexta, porque final de semana é muito longo  geralmente começa na sexta e só termina na segunda, com sorte: muito tempo de orgia alimentar. Então eu percebi que essa seria uma boa pra mim, que gostaria de fazer assim e que até simpatizava com a ideia: sexta, o dia da escapadinha com perdão.

O engraçado, apesar de não me causar riso, é que eu vinha comendo o que quisesse, quando quisesse. Difícil aceitar isso. A cabeça, louca pra comer, vai produzindo e aceitando as próprias fantasias. A verdade é que eu estou comendo, sim, mais do que já comi um dia. Estou comendo, sim, muito mais besteiras e calorias vazias que já comi um dia.

Essa é a primeira sexta da escapadinha com perdão; essa também é a semana que, finalmente, recomecei a minha jornada. Deletei a minha insegurança da última sentença e, apesar do medo de fracassar, vou aqui afirmar mais uma vez: SIM, eu recomecei, eu estou seríssima sobre isso!

Adotei um mantra, que está dando certo. Digo que está, porque deu ontem e deu hoje e, oras, isso é muita coisa e pretendo estender a ser mais ainda!

Ontem e hoje estava na rua, todo o dia. O tanto de coisa gostosa que passou por mim... o tanto de não que me dei... (...) A coisa era simples, aquela atitude que muitos conhecemos, de só dizer não, sem nem pensar. Não, pronto acabou. Não. Não! Não. Com os nãos e meu mantra, ia conseguindo clareza e rapidamente desviando os pensamentos que se formavam em torno de cada gostosura. E vou te dizer, quantas gostosuras! Eu não sei se conseguiria enumerar o tanto de comida que me neguei. A cada cinco metros, uma delícia. Sem brincadeira, foi muito não. Hoje, já no ponto do ônibus pra voltar pra casa, uma última tentação: a menina carregava um açaí que, olha... parecia um brigadeiro, de tão cremosa a textura! Depois de muito olhar, identifiquei a loja de onde vinha  era daqueles de máquina, tipo sorvete de casquinha. Só que, ao invés de parecer nojento ou artificial, era uma coisa louca. Que cor! Que textura! Agora, sabendo de onde vinha, colei os lábios pra controlar meu impulso de atravessar as duas pistas, comprar uma maravilha daquelas pra ser minha e voltar pra espera do meu ônibus  que já era longa, pra ajudar. Repeti meu mantra na cabeça várias vezes, mas aquele açaí cremoso era muito forte. Lancei mão de outra arma: olhei a menina e me perguntei "Quero ser assim?". A resposta era clara. Então, de novo, era não. Não quero ser assim e não vou atravessar e comer esse açaí. Mais 15 minutos de espera e fui vencendo a vontade. Taí outra coisa que vou fazer antes de querer me render ao que outros andam comendo.

Tenho buscado me alimentar de forma mais simples e também mais "de dieta". Sopinhas, pratão de legumes sortidos com frango, frutas no lugar de doces. Eu sinto falta do meu paladar, já mais refinado, que se perdeu quando me joguei nos industrializados diets. E, por falar em frutas, hoje incluí duas novas ao meu cardápio: fruta-do-conde e uva! Ah, como fico feliz em abraçar novos sabores! Significa tanto pra mim começar a gostar de uma nova fruta, um novo legume! Aliás, hoje também provei quiabo que, apesar de baboso e da aparência peluda repelente, é gostoso. A fruta-do-conde foi um encantamento. Parece um doce, de tão docinha (redundante, mas vocês entenderam). Comi vagarosamente, como com todas as novas coisas que aprendo a comer, e foi uma ótima experiência e sobremesa pós almoço. Apreciei cada descoberta da pinha: o cheiro, as sementes, a textura, o sabor, aquela parte arenosa, o miolo detalhado, a casca. As uvas, também, docinhas. Já tinha provado uva antes, mas não tinha gostado. Talvez não estivessem tão boas, talvez eu não estivesse com tanta boa vontade. Mas, agora? O que me sobra é boa vontade, de novo. "Não há nada que eu não goste" é meu lema. Quero ser aquela que gosta de todos os sabores da natureza. O que me lembra que preciso trabalhar na questão da melancia. E do melão. E das coisas amargas, em geral. Ontem, provei abacate in natura, sem fazer aquela delícia daquele creme com pouquinho de leite e açúcar. Comi umas colheradas, mas me rendi ao que realmente queria: a deliciosidade do creme. O que importa é que eu me amo muito quando me jogo a provar as coisas assim. Parece um impulso que dou com os dois pés e saio por aí voando de olhos fechados e com expressão de satisfação, tipo em desenho animado, com aquele rastro colorido pra trás.

E pro meu bem estar, andei fazendo um cleanse; um detox. Não, não de comidas. De informação. Basicamente, eu sei o que fazer pra emagrecer, sei que a receita é alimentação e atividade física. Sei dos benefícios de cada um dos alimentos, sei o que comer no pré e pós treino, mesmo sem treinar. Sei do índice glicêmico dos alimentos. Sei que fruta você "deve" comer com uma fonte de proteína. Eu sei demais! Segui meu próprio conselho e saí um pouco do instagram; não assim que escrevi que sairia. Mas depois, quando vi, já tinha um bom tempo que não entrava. Me senti meio alcoólatra pensando se me faria bem logar de novo ou não. Loguei, olhei as mentions e saí. Meu detox foi esse: me afastar um pouco. Do instagram, do blog, das informações, das dicas, da pressão, das receitas de sucesso, da vida dos outros, das realidades que não eram a minha. Precisei parar um pouco, olhar pra dentro. Eu, minha luta. Meus resultados. Minha melhora, minha qualidade de vida, minha realidade, meus limites, meus erros, minhas fotos de antes e depois: eu. Precisei me desligar de tudo e viver somente eu. E, antes disso, precisei, até, não pensar em nada. Nem nos meus erros, nem nos meus acertos. Eu estava pensando demais, sabendo demais, overthinking demais, estressada demais. E ainda assim errando tudo. Simplesmente parei. Não pensava em dieta, em emagrecer, exercícios... nada. Tentei levar a vida relaxadamente, acalmando, suavizando, até que consegui chegar aqui, onde estou. E agora estou levemente, ou normalmente, pensando nessas coisas de novo. Sem pressão, sem pressa. Devagar. Tentando voltar às origens. Tentando acalmar. Tentando. Eu sei o que fazer, vamos aos poucos, passinhos de bebê. Só depois do cleanse, pude botar a cabeça no lugar. E ainda não estou inteira, ainda não confio em mim pra me colocar disposta à pressão de roda de informações de novo. Devagar.

E o meu mantra, que entoo com a cabeça bem erguida e desprezo encenado, todas as vezes que passo por qualquer coisa deliciosa, maravilhosa e gorda, é simples: "Inegociavelmente de dieta.".

terça-feira, março 24, 2015

Sobre meu espaço no mundo

Eu vivo olhando aviões. Aviões passam sempre por aqui. Uns mais baixos, outros bem lá no alto. Morro de medo de todos eles. Meu pensamento funciona da seguinte forma: se eu entrar num avião, é bem provável que eu morra; tipo 99% de chance de morrer e um mísero por cento de sair viva. Tudo isso sabendo que "o avião é o meio de transporte mais seguro", como eles dizem.

Vivo lendo sobre aviões. Aviões fazem parte do plano central do meu futuro. E não bastasse toda a tensão da viagem, do pensamento da turbulência, de ficar sem ar dentro da cabine, de o avião cair e explodir ao se chocar com a água, tem a gordura  sempre tem.

"Gordinhas são barradas em voo nos Estados Unidos"
"Passageiro gordo não cabe na cadeira da American Airlines"
"Obesos pagarão por 2 poltronas em aviões"
"Obeso é recusado em avião, navio e trem"

Essas são só algumas manchetes. Fora o tipo de comentário babaca que se lê por aí:

"O gordo(a) quer sentir prazer comendo até se acabar. Para que algumas pessoas comam demais, outras tem que comer menos ou passar fome, como acontece com quase 1,7 bilhões de pessoas no planeta terra que morrem diariamente por falta de comida (sugiro a leitura de “O mundo não é plano”). Como se não bastasse depois de sentirem um enorme prazer comendo, querem que as demais pessoas se solidarizem com eles e viagem espremidas nos seus assentos em aviões, metrôs e etc. Aliás, no metrô de SP já há vergonhosos assentos para gordos (as). Depois de tudo isso, ainda pagamos a conta deles no SUS, os miseráveis comem, ficam gordos (as), adoecem de tanta gordura e os demais pagam a conta através de seus descontos salariais destinados ao INSS, sem contar que muitas pessoas deixam de ser atendidas na saúde pública, porque na fila tem um (a) gordo(a) na frente porque passou a vida enchendo a pança de porcaria e depois vai procurar o doutor. Daqui a 300 anos estou certo que tem terá direitos e privilégios são aqueles que cuidam da saúde e não os que a negligenciam. Gordos e gordas fechem a boca e mexam o corpo, o planeta e a civilização agradecem." (Comentário em Blog do Turismo)

Pra que tanto ódio?

Ainda bem que há gente sensata, também:

"A obesidade, principalmente a mórbida, é fruto de patologias, senão físicas, psicológicas. Ninguém quer ser gordo, apenas não consegue controlar seu peso. Não cabe à ninguém julgar o motivo nem mesmo querer que a pessoa pague a mais para poder viajar." (Comentário em Blog do Turismo)

Houve um tempo da minha vida, que eu só andava de trem. "Eu prefiro trem! Adoro tem."  Inverdade. Eu adoro trem, verdade, mas o motivo real era: eu entalei sério uma vez numa roleta de ônibus e, desde então, nunca mais tinha sido a mesma.

O causo da roleta aconteceu quando eu tinha uns... 15 ou pouco mais anos. Estava com minha mãe, estávamos voltando do shopping. Nem ela, nem eu: as duas empacaram bem no meio da rodada e foi difícil  e doloroso, não só fisicamente  conseguir terminar de rodar. Vergonha demais.

Andava em ônibus conhecidos, que já sabia que passaria, sem problemas. Um dia, tive que embarcar num outro ônibus e cheguei a ficar com os olhos inundados de medo. Totalmente abalada, coração disparado, tremedeira, à beira de um colapso nervoso. Consegui passar, mas fiquei tentando me acalmar daquele desespero a viagem inteira. Falando em pensar nisso a viagem inteira, jamais pegava aqueles ônibus com uma porta só! Isso significaria a exaustão em torno da roleta duas vezes! Pouco antes de entrar no ônibus, acredito, sofria um efeito baiacu. Tinha que me concentrar em ficar muito, muito calma, pra não inflar e piorar o que já era ruim. Pra ajudar nessas ocasiões, costumava escolher uma roupa de tecido escorregadio, geralmente helanca — que detesto  pra deslizar mais facilmente. Bolsas e casacos, jamais passariam comigo. Nada que me acrescentasse uma camada extra! Se estivesse carregando um ou outro, a ordem era sempre a mesma: passava-os pra mão direita, colocava a mão direita do lado de lá da roleta, espremia a barriga e rodava, de lado. Depois de um tempo, aprendi os truques. Sempre me ajudava. Encolhia a barriga, ficava na ponta do pé e, se fosse uma roleta com um espaço aberto atrás, encaixava a bunda ali  me rendia espaço.

Passei um tempo pegando só os ônibus conhecidos e me abstraindo das memórias do trauma. Até que um dia, em 2008, fui passear pelo bairro da faculdade com uns amigos queridos. Bairro de gente riquinha e metida, exceto por eles, que eram gente boa. Mais uma vez, foi muito difícil rodar. Eles notaram, claro, e eu fiquei com aquela minha cara de louca envergonhada, ao mesmo tempo querendo rir histericamente, fingindo que nada tinha acontecido, ao mesmo tempo de cabeça baixa ou olhando no horizonte das ruas arborizadas, morrendo de vergonha. Daí em diante, foi mesmo só trem e metrô — e o ônibus daqui de perto, o conhecido. Aí inventaram de incluir os obesos na categoria do assento especial dos ônibus. NUNCA, JAMAIS, eu sentaria ali. Porque, claro, ninguém sabia que eu era obesa! Se eu sentasse ali, confortavelmente, todos descobririam! Mesma coisa subir pela porta de trás do busão. Jamais. Muita vergonha. Todo mundo saberia que estava subindo por ali porque não conseguia passar pela da frente. E, além do mais... "Ô, motorista! Pode abrir a porta de trás pra mim, por favor, porque entalo na roleta?" Pensa na humilhação. Tudo isso mudou quando eu emagreci os 35kgs e comecei a andar por todos os ônibus que podia, tirando uma onda que só eu sabia. Hoje também sento no banco de obesos, sem nenhum complexo, na maioria das vezes (mas me faço caber em só um pouco mais da metade do banco, pra mostrar que sou magrinha— "Sou obesa, mas não sou das piores, tá? Olha esse espaço todo pra uma pessoa malnutrida aqui do meu lado! :D").

Eu entendo bem de viajar mal em trem, metrô, ônibus comum, ônibus de viagem (além de gorda, é alta e o infeliz da frente sempre quer inclinar o banco pra ficar confortável, enquanto eu vou criando um câncer no banco de trás, irritadíssima e calada sobre meus joelhos massacrados)... eu entendo bem de tudo que vai mal para gordos. Mas avião, não.

"Ajeitar-me no banco foi uma tarefa relativamente fácil para um gordo acostumado com o design cruel dos assentos de avião. O primeiro passo é deixar o cinto de segurança sobre os braços da cadeira antes de sentar. Depois, ir já de costas na direção de sua poltrona para, com todo cuidado do mundo, ajeitar-se no pequeno espaço. Em seguida, o cinto deve ser estendido até o limite máximo, a barriga deve ser “puxada” e, com sorte, o cinto entra de primeira. Depois, é só ajeitar o tamanho correto e verificar se continua sendo possível respirar." (Texto em Papo de Gordo)

Todos dizem que poltrona de avião (Classe econômica, é claro! Jamais vou pagar 17 mil numa viagem!) é extremamente pequena e desconfortável. Eu fico pensando... e se eu não conseguir prender o cinto de segurança, como sempre na vida, e passar por uma turbulência e quebrar o pescoço ao bater no teto, pois era gorda e estava frouxa? E se o avião cair por minha causa? Pior ainda, e se tiver uns três obesões no avião? E se, antes de tudo isso ter oportunidade de acontecer, não me deixarem embarcar por ser obesa?


Eu não quero ser obesa e quero muito embarcar para o meu grande plano de futuro. Eu vinha tomando isso como incentivo pra continuar emagrecendo e vou voltar a me apegar nisso, nessa nova jornada de reação que se inicia.

"Esteja em forma. Jovens esbeltos têm as melhores chances de sobreviver a um acidente de avião. Enquanto as mulheres obesas têm as piores probabilidades." (Texto em Negócio Digital)

Foto por Flightglobal.com

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