Sexta à noite, perto das nove. Estou em casa, fazendo nada, como gosto, e está perto da hora de comer. A vontade de mastigar já está um pouco forte demais, uso minha aliada: a cozinha. Cozinhar perto da hora de comer sempre me permite aguardar o tempo de comer. Resolvi fazer uma sopinha. Daquelas de caldo ralinho mesmo, queria assim. Eu, que sou a não-entusiasmada número 01, quando se trata de sopas. Piquei chuchu, batata e cenoura que, mais tarde, iriam pro refogado junto da cebola e a manteiga sem sal. Tudo lindo, bonito, o cheiro já gostoso no ar. Um cheiro até de conforto, que é suposto das sopas trazerem. Já pensando na vontade de docinho que me dá depois de almoçar/jantar comida de verdade, sem ser lanche, me encorajei a preparar um arroz doce integral. Tudo caminhando bem, até que...
Não me lembro bem o que fui procurar no armário da dispensa, acho que macarrão pra sopa, que nem usei. Abri, olhei, demorei três segundos pra lembrar o que queria ali, o de sempre. Mas, em algum lugar no meio disso, a cilada: em cima do armário, um pacote daqueles de meio quilo de pão de mel. Foi imediato. Me chamou, eu fui. Literalmente seduzida e com zero esforço por parte do meu sedutor. Resisti por, sei lá, 57 segundos, repassando na cabeça a teoria do primeiro gole, o cuidado que tenho tentado ter de reduzir porcaria e carboidrato simples depois das dezoito, a sopinha tão gostosa que só existiu com o propósito de ser minha janta, o arroz doce que já seria minha porção de doce logo mais... Não deu. Ou eu não quis. Eu sinto mais como se eu tivesse jogado um monte de papel pro alto, por vontade própria. Após dar voltas e voltas na cozinha, como quem aguarda um bebê no saguão, eu me rendi.
"Foda-se, eu quero."
"Tanto faz, melhor comer do que guardar a vontade e ela piorar."
"Só trêszinhos pra matar a vontade! (...) Pronto, passou."
"Nem é tão gostoso, tá vendo que seco?" — E então eu voltava como uma viciada em heroína pro pacote de pão de mel. Mais três, mais três, mais um pra completar número par.
Já estando ali, com a boca cheia de... fracasso/liberdade/raiva/prazer, por que, então, parar? Eu escrevo agora, repassando meticulosamente a cena, mas a verdade é que, na hora, não penso muito. Até penso. Talvez pense muito, sim. Mas é tudo tão misturado! A boca e as mãos atacando em equipe, meu corpo como se estivesse aumentando de tamanho, se transformando num rei momo monstro que domina, e eu, a parte que luta, encolhendo e me desfazendo, dentro da carcaça. Tudo isso mais rápido do que se pode acompanhar. Mais três fatias de bolo da padaria.
Não me lembro claramente do depois. Só lembro quando estava no fogão, agilizando a sopa e encarando-a vagamente, talvez com vergonha, talvez desorientada.
A sopa estava ótima, repeti.
O arroz doce, queimei enquanto escrevia o primeiro parágrafo.
Não me lembro bem o que fui procurar no armário da dispensa, acho que macarrão pra sopa, que nem usei. Abri, olhei, demorei três segundos pra lembrar o que queria ali, o de sempre. Mas, em algum lugar no meio disso, a cilada: em cima do armário, um pacote daqueles de meio quilo de pão de mel. Foi imediato. Me chamou, eu fui. Literalmente seduzida e com zero esforço por parte do meu sedutor. Resisti por, sei lá, 57 segundos, repassando na cabeça a teoria do primeiro gole, o cuidado que tenho tentado ter de reduzir porcaria e carboidrato simples depois das dezoito, a sopinha tão gostosa que só existiu com o propósito de ser minha janta, o arroz doce que já seria minha porção de doce logo mais... Não deu. Ou eu não quis. Eu sinto mais como se eu tivesse jogado um monte de papel pro alto, por vontade própria. Após dar voltas e voltas na cozinha, como quem aguarda um bebê no saguão, eu me rendi.
"Foda-se, eu quero."
"Tanto faz, melhor comer do que guardar a vontade e ela piorar."
"Só trêszinhos pra matar a vontade! (...) Pronto, passou."
"Nem é tão gostoso, tá vendo que seco?" — E então eu voltava como uma viciada em heroína pro pacote de pão de mel. Mais três, mais três, mais um pra completar número par.
Já estando ali, com a boca cheia de... fracasso/liberdade/raiva/prazer, por que, então, parar? Eu escrevo agora, repassando meticulosamente a cena, mas a verdade é que, na hora, não penso muito. Até penso. Talvez pense muito, sim. Mas é tudo tão misturado! A boca e as mãos atacando em equipe, meu corpo como se estivesse aumentando de tamanho, se transformando num rei momo monstro que domina, e eu, a parte que luta, encolhendo e me desfazendo, dentro da carcaça. Tudo isso mais rápido do que se pode acompanhar. Mais três fatias de bolo da padaria.
Não me lembro claramente do depois. Só lembro quando estava no fogão, agilizando a sopa e encarando-a vagamente, talvez com vergonha, talvez desorientada.
A sopa estava ótima, repeti.
O arroz doce, queimei enquanto escrevia o primeiro parágrafo.

